Se você sentiu que engordou sem mudar nada, não é impressão. Acontece com ao menos metade das mulheres, e por trás disso há um motivo fisiológico que não tem nada a ver com força de vontade. Entender esse processo é fundamental para quem pensa não apenas em estética, mas em longevidade. Por isso, pedimos aos ginecologistas e obstetras Carlos Czeresnia e Ricardo Czeresnia para destrinchar o que há por trás desse mecanismo – e abastecer você de informação útil para não meter os pés pelas mãos na hora de buscar uma boa forma física.
Na menopausa, o corpo muda as regras.
O metabolismo basal, isto é, a energia que o corpo gasta só para existir, respirar, o coração bater, o cérebro funcionar, cai de 20 a 30%. Ou seja: o organismo passa a precisar de bem menos calorias do que antes. O mesmo prato de sempre passa a pesar diferente.
E muda também onde a gordura se instala. Com a queda do estrogênio, ela sai da periferia e se concentra no centro do corpo – ou seja, na barriga. Ali ela fica mais disponível. E embora isso não pareça nada bom, há uma explicação: nessa fase, o cérebro muda de combustível.
Durante a vida toda, o cérebro funciona movido a glicose, o açúcar dos alimentos. Ele é pequeno, mas voraz: consome cerca de 20% de toda a energia do corpo. Com a queda do estrogênio, passa a usar esse açúcar de forma menos eficiente e por isso aprende a recorrer também à gordura como fonte de energia. A solução é deixar a gordura mais à mão.
Ou seja, não é um defeito, é uma adaptação. Lembre-se de que nosso organismo não evoluiu para a disponibilidade de alimentos que temos hoje em dia.
Emagrecer é mais do que uma questão estética
O excesso de peso sobrecarrega fígado, coração, rins e articulações. Emagrecer diminui o risco de diabetes e de eventos cardiovasculares. A gordura acumulada também mantém o corpo num estado inflamatório de fundo, que aumenta o depósito de placas de colesterol nos vasos e, com isso, o risco de eventos cardiovasculares como infarto, trombose e AVC. Nesse cenário, o uso das canetas é não só válido: é benéfico.
Na região genital, a perda de peso também traz ganhos: alivia a pressão sobre os músculos do assoalho pélvico, o que leva a uma melhora em condições como prolapso dos órgãos pélvicos (a famosa ‘bexiga caída) e incontinência urinária de esforço. Além disso, a perda de peso reduz a liberação de substâncias irritativas para a bexiga, diminuindo a sensação de urgência, ou aquela vontade de sair correndo para o banheiro. Mas há um cuidado que acompanha o emagrecimento nessa fase, sobretudo quando é rápido e acentuado.
O que vem junto quando se perde peso rápido demais.
Lembra que o cérebro passou a contar com a gordura como fonte de energia? Daí que emagrecer rápido demais pode, em algumas mulheres, aumentar a oscilação de humor e dar uma sensação de menos “pique”.
Além disso, saiba que tanto o estrogênio quanto a testosterona e progesterona são hormônios gordurosos. Ainda mais na menopausa, quando a principal fonte de estrogênio da mulher passa a ser a estrona, que é produzida na própria célula de gordura. Daí que quando a gordura disponível diminui de forma muito acentuada, o nível hormonal cai junto, levando com ele benefícios na massa óssea ou na saúde genital. Trocando em miúdos: essa perda muito rápida pode aumentar a reabsorção óssea, levando a osteopenia ou osteoporose, e acentuar a síndrome genitourinária da menopausa (aquela condição cujos sintomas são: ressecamento vaginal, dor nas relações, aumento de infecção urinária e incontinência urinária). Algumas vezes, fica difícil separar o que é efeito da caneta e o que é a própria queda hormonal, mas o fato é que os dois se sobrepõem.
Por isso, emagrecer rápido demais e sem acompanhamento pode cobrar seu preço no humor, nos ossos, e na saúde genital. Motivos suficientes para se pensar que a tão desejada perda de peso deve ser buscada com equilíbrio, sob um olhar cuidadoso. Não é motivo para temer a medicação, e sim para usá-la com cuidado, não como atalho isolado.
O exercício deixa de ser opcional
É importante lembrar que uma perda de peso muito acelerada também implica em perda de massa muscular. Vale lembrar que na menopausa é cada vez mais difícil ganhar músculo. E se depois do emagrecimento acentuado existir o famoso efeito sanfona, ele virá em grande parte na forma de gordura e não de massa magra. Ou seja: a atividade física é ainda mais prioritária.
Sem falar que os ganhos da prática regular de exercícios não tem só a ver com peso, mas também com a autonomia. Músculos fortes permitem mobilidade, evitam quedas, que por sua vez evitam fraturas. É isso que define como você chega aos 80, aos 90. Porque não basta chegar lá: é preciso chegar com qualidade.
Mas atenção: especialmente nessa fase e por todos os motivos que já citamos, não vale o “exerciciozinho”. Vale o movimento de verdade, diário. Pense menos em balança e mais em longevidade e qualidade de vida. A balança é apenas um parâmetro que precisa ser considerada no conjunto de características de cada uma.
O que isso significa na prática?
A ciência ainda está construindo as respostas sobre as canetas emagrecedoras. No balanço geral, para muitas mulheres, os ganhos cardiovasculares e metabólicos superam as preocupações. O ponto não é evitar, mas sim acompanhar com um olhar global, não apenas estético, mas levando em consideração a saúde em geral, incluindo a saúde sexual e genital. E sempre com atenção individualizada, porque cada corpo responde de um jeito. Conhecer o seu é o que permite cuidar bem dele.
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